Como a positividade tóxica pode prejudicar a sua saúde mental

Não faz muito tempo desde que ouvi pela primeira vez a expressão Positividade tóxica, e apesar de sua aparente contradição – poderia o positivo ser ruim? – as palavras ecoaram em mim com certa familiaridade e sentido, o que me levou a refletir mais profundamente sobre o seu significado e aplicação nos nossos dias atuais. Vamos falar sobre isso?

“A diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem”, anuncia a frase que remete a ideia de que se não administramos a quantidade corretamente de qualquer coisa, elas podem se tornar prejudiciais.

Que o excesso de negativismo é prejudicial é fato, e não precisa ser nenhum especialista no assunto para entender a questão. Interpretar tudo de uma maneira excessivamente negativa ou sentir emoções negativas o tempo todo também não é o melhor cenário.

Pessoas com transtornos depressivos tendem a sentir assim a maior parte do tempo. Enxergam as coisas de uma maneira mais negativa e fatalista que a maioria das pessoas, o que as desmotiva a acharem soluções construtivas para os problemas e encontrarem sentido na vida. Da mesma maneira, estamos cansados de saber que níveis elevados de estresse causam grandes prejuízos para a saúde.

 

Mas poderia a positividade em excesso prejudicar alguém da mesma maneira?

Positividade tóxica costuma se referir a crença de que devemos manter uma visão positiva de todas as situações que vivemos, mesmo que elas sejam desagradáveis, injustas ou prejudiciais. Seguindo esta lógica, não importa quão ruim sejam as circunstâncias, sempre é melhor se esforçar para ver as coisas de modo positivo e não dar atenção às emoções e pensamentos negativos.

Assim, o principal problema dessa idéia é assumir erroneamente que devemos evitar sentir coisas negativas pra sermos mais felizes, já que esse tipo de coisa não contribuiria muito pra nossa qualidade de vida.

Negar, ignorar, minimizar ou desprezar suas próprias emoções e pensamentos desagradáveis: negligenciar o negativo pode custar caro, e seu corpo adoece.

Na ânsia de se sentir bem o tempo todo, podemos nos tornar alienados ou vulneráveis, e não tomar atitudes necessárias para reverter situações que necessitam.

Ironicamente, a positividade em excesso pode ter efeito contrário e fazer a pessoa se sentir pior a longo prazo. No curto prazo, entorpece quem faz uso dela, como uma droga.

Do latim “toxicum” e em grego “toxikon,” veneno para as flechas, tóxico é tudo aquilo que tem propriedade de envenenar e causar danos ao organismo.

Pela ótica psicanalítica, a etimologia de “tóxico” foi comparada à “paixão” e pressupõe sofrimento por parte daquele que, no lugar da vítima atacada, sofre passivamente a ação de alguém que atua no ataque.

E o que isso quer dizer? Quem está por trás atuando nesse ataque?

Redes sociais e canais de Youtube estão inundados de mentores da felicidade, influencers da alegria, coaches de desenvolvimento para sua maior versão, cursos de performance, leituras de autoajuda para ser mais … ser o que mesmo?

Uma avalanche de palavras positivas e estímulos vitais que podem ser verdadeiras armadilhas do seu bem estar e da sua saúde mental. Algo está desregulado: um otimismo exacerbado. Uma positividade que cansa. Que consome. Que adoece.

Frases que ecoam de maneira que chegam agredir, pela pressão que fazem em nossas vidas para que as coisas estejam sempre bem. E se não estiver, a culpa é minha?

Não está tudo bem quando não está tudo bem? A gente não precisa pagar essa conta.

O excesso de positividade funciona no online. Mostrar-se feliz, vende. Exibir vida sem problema, inspirar, colocar verbalmente que somos capazes de “chegar lá” chama seguidores, e atrai clientes. Seguidores que por sua vez vivem o dilema da rotina real, ou melhor, da vida real, começam então a lutar:

● Eu também quero ser feliz como fulana;
● Acordam às cinco da manhã porque o coach disse que o esforço é um caminho;
● Meditam por 10 minutos porque o mestre disse que esse é o segredo;
● Treinam, mudam a alimentação, escrevem seus sonhos num papel, se encaram no espelho e mesmo não gostando do que veem, precisam se olhar e dizer em voz alta VOCÊ É CAPAZ!

Sim, nós somos. De muito, de tudo, mas esconder uma realidade atrás de uma positividade ilusória nos adoece. Positivismo demais não é positivo para ninguém.

Cada um com sua tentativa. No seu tempo, no seu jeito, da forma que achar que funciona.

Não dá pra ignorar os fatos, mas dá para trabalhar sua cabeça de forma saudável.

Não dá pra repetir o que a blogueira faz, mas dá para procurar o seu próprio caminho.

Não dá pra se esconder atrás do positivismo, mas dá para concentrar mais energia no que pode dar certo.

Não dá para fechar apenas um olho.

#Good vibes only

“Pensa positivo”! “Muda sua energia”!

As tentativas incessantes de suprimir e escapar dos sentimentos negativos podem ser consideradas grandes causas do sofrimento emocional, incluindo a culpa. Evitar o sofrimento é uma forma de sofrimento e é desonesto em relação a quem podemos permitir-nos apenas expressões positivas.

A ordem “engole esse choro”, tão conhecida e ouvida por muitos na infância, seria o imperativo de uma cultura que valoriza o racional e nega a expressão de emoções e sentimentos. Você não pode ficar assim; não fique triste por isso; se você se animar, as coisas com certeza vão melhorar.

Falas como essas são gatilhos para que passemos a reprimir cada vez mais nossos sentimentos e, ainda, para que tenhamos vergonha de conversar sobre eles – o que era uma necessidade e uma obsessão por sempre estar bem. Parece familiar?

O copo quase cheio

Lutar contra o pessimismo e enxergar o copo quase cheio é uma questão de treino. Duro e árduo. Nos tornamos pessimistas naturalmente com as circunstâncias da vida, porque sim, a vida muitas vezes é dura com a gente.

Para que nossa espécie evoluísse, nossa mente precisou se fixar no perigoso e ameaçador para sobreviver. Assim, aprendemos a ser pessimistas pelas circunstâncias da vida.

A psicologia positiva foi um importante passo dado pelo psicólogo Martin Seligman, seu idealizador, para estudar cientificamente tudo o que torna o ser humano feliz. Seligman trabalhou muito com os problemas da depressão e deu uma perspectiva diferente para lidar com diferentes problemas, situações ou patologias.

Segundo o autor, podemos lutar contra o pessimismo e transformar nossos pensamentos negativos em mais positivos. Mas isso não quer dizer que, se você se sente triste, tem que se concentrar em ser feliz. Na verdade, fazer isso provavelmente cairá na armadilha da positividade tóxica porque, para trabalhar as emoções negativas, você não pode ignorá-las. Primeiro você deve reconhecê-las e aceitá-las.

 

Psicologia Positiva X Positividade Tóxica

Enquanto a psicologia positiva sugere que lidemos com as emoções negativas para atingir uma nova perspectiva com relação a elas na busca pela felicidade, a positividade tóxica está repleta de discursos que menosprezam a individualidade humana e silenciam nossas emoções.

O problema com a positividade tóxica é que ela é uma negação de todos os aspectos emocionais que sentimos diante de qualquer situação que nos represente um desafio.

Negar constantemente tudo o que é ‘negativo’ que sentimos em situações difíceis é exaustivo e não nos permite construir resiliência (a capacidade de nos adaptarmos a situações adversas).

Isso nos isola de nós mesmos, de nossas verdadeiras emoções e acaba nos afastando dos outros. Nós nos escondemos atrás da positividade para manter outras pessoas longe de uma imagem que nos mostra imperfeitos.

 

Onde mora a felicidade

Felicidade tem a ver com viver intensamente o presente, para o bem e para o mal, com seus dias de pesar e gravidade. Tem menos a ver com expectativas e mais com a realidade. Seguindo este pressuposto, a vida real é união dos opostos, do bom e ruim, do claro e escuro, do amor e da dor.

A vida cor de rosa não existe, porque a vida tem diversas cores e tons, e precisa ser vivida em sua inteireza.

Desconfie de pessoas que dizem que você precisa ser positivo para ser melhor. É ilusão achar que a vida está dando certo por conta do positivismo. Isso pode ser alienante e prejudicial para nossa saúde: Suprimir as emoções nos esgota mental e fisicamente.

Se você esconder suas dificuldades mentais por trás de uma fachada de positividade, elas se refletirão de maneiras alternativas, somatizadas em seu corpo.

“Todo excesso esconde uma falta”, uma afirmação tão verdadeira que nos convida a buscar o equilíbrio em oposição aos extremos e polaridades.

 

Para ser feliz e saudável não ignore suas emoções negativas

Para quem deseja encontrar ou manter a felicidade, o primeiro passo é começar essa busca assumindo e acolhendo a própria tristeza e todos os outros sentimentos desconfortáveis com os quais faz parte da natureza humana se deparar.

As emoções negativas são essenciais para nosso bem estar, pois promovem sobrevivência, nos ajuda a dar sentido pras experiências e nos ajuda a tomar decisões no nosso dia a dia.

Graças a elas percebemos que existem aspectos do ambiente ou de nós mesmos que precisam ser modificados e melhorados. Não seja mais um alienado.

 

Aceitação

Pesquisas apontam que pessoas com maior tendência a aceitar emoções e pensamentos negativos como uma parte natural da vida e da mente, se sentem mais felizes. Isso acontece porque quando pessoas com postura de maior aceitação vivenciam experiências negativas, estas experiências seguiram seu curso natural, as quais costumam ser de curta duração.

As que julgam as experiências negativas como inaceitáveis, acabam exacerbando a intensidade das mesmas, por se incomodarem com elas e aumentam a duração das mesmas por se engajarem em tentativas pouco efetivas de suprimi-las.

Não à toa que ter maior facilidade de aceitação do negativo está relacionado com menor chance de desenvolver sintomas de ansiedade e depressão. Aceite e vivencie pensamentos e sentimentos negativos. Tentar suprimir pode ser pior, deixando-os mais ocorrentes. É mais útil entender o que eles sinalizam ao invés de fingir que não existem.

Muitas vezes não é tanto o problema mas sim o modo pouco efetivo que lidamos com eles.

Os pontos negativos podem te ajudar a perceber o que não está bom e fazer mudanças nela. Só que isto depende de fatores como aceitação e disposição para mudar. Esteja consciente.

A felicidade não deveria ser vista como uma meta a ser alcançada, mas como o efeito de uma vida que vale a pena ser vivida na sua tristeza, no seu luto, nas suas perdas, e na sua raiva. A recomendação que Freud fez há mais de 90 anos não poderia ser mais atual: “cada um deve encontrar o seu caminho para a felicidade, e que ele seja o menos negacionista possível”.

Texto: Thifanny Subtil Kutkiewicz, idealizadora do programa de bem-estar Inside e CEO Kliné (@kline.ista). Atua como psicóloga clínica há 14 anos e é especialista em Psicoterapia Breve pela Universidade de São Paulo (USP) e em Mindfulness pela UNIFESP (MBHP). Tem mestrado em Psicanálise e Filosofia da Cultura pela Universidade Complutense de Madrid.

* Este artigo representa a opinião do seu autor e não a posição oficial da página.

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